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quinta-feira, 1 de março de 2012

Ninguém sabe

"Eu gosto de carinho violento. De falar. De estar certa. De quem entende o que eu digo. De quem escuta o que eu penso. Da minha prole. Dos meus discos. Dos meus livros. Dos meus cachorros. Dos Stones. Do Rock Natural. Da minha solidãozinha. Dos meus blues. Do meu sofá vermelho. Da minha casa. Do meu umbigo. De unhas cor de carmim. De homem que sabe ser homem. De noites em claro e dias em branco. De chuva e de sol. Eu guardo as minhas rejeições em vidrinhos rotulados com o nome deles. Eu sou mole demais por dentro pra deixar todo mundo ver. Eu deixo pra quem eu acho que pode comigo. Ninguém sabe. Mas eu tenho coração de moça."

[Fernanda Young]

terça-feira, 15 de março de 2011

a louca da família




“(...)Muitas vezes, a família toda é louca, mas, como não se pode mandar uma família inteira para o hospício, um de seus membros é declarado louco e internado. Aí dependendo da reação do resto da família, essa pessoa permanece internada ou é liberada de forma a atestar alguma coisa sobre a saúde mental da família”.

(Susanna Kaysen in: Moça, interrompida. Ed. Marco Zero, p.88)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Abandono


Quis cair de joelhos e não me mexer nunca mais. Apenas socar o
chão com meus punhos até que alguém viesse e me levasse embora.
Mas a gente não faz esse tipo de coisa.”

(Josephine Hart in: Abandono. Ed. Record, p. 60)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Luísa (Quase uma história de amor)


“Em seguida devolvi a pergunta, também querendo saber se Luísa
era feliz, e a resposta foi: “Não sei se estou feliz, mas não estou
infeliz. Aliás, acho que estou bem”. “Muito bem”, frisou. (...)
Felicidade para Luísa não tem nada a ver com a vida real. A felicidade
de Luísa está sempre associada a fragmentos de fantasia: uma música,
uma cena de filme, uma poesia, uma paixão romanesca, um encontro
com alguém como Raul, que comunga da mesma sede de ficção, do
mesmo gosto pela composição desses mosaicos de emoções breves e
inconsistentes. Felicidade para Luísa é tudo aquilo capaz de a projetar em
outra dimensão, uma dimensão em que ela possa se sentir uma
personagem diferente e acima dos outros mortais.”

(Maria Adelaide Amaral in: Luísa (Quase uma história de amor). Ed. Globo, p. 184)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A menina do fim da rua

"Ela deu um suspiro profundo, como se quisesse dizer que ele não estava tentando compreender.
- O jogo é fingir, é fazer os movimentos da vida, mas não é para viver.
- A escola é a vida.
- Não. - Rynn balançou a cabeça com tanta força que foi preciso afastar dos olhos os longos cabelos. - A escola é ter pessoas lhe dizendo o que é viver, sem deixar que você descubra por si mesmo.
- Mas é preciso ir à escola.
- Para quê?
- Para aprender alguma coisa.
- Tais como...?
- Ler e escrever, e...
- E eu não sei ler, eu não sei escrever?
- Muito bem, porque seu pai lhe ensinou. E o que diz de quem não tem um pai como o seu?
- Alguma vez me referi a outra pessoa, além de mim mesma? Se você gosta da escola, tanto melhor para você.
- Exceto que eu não acredito que você esteja dizendo o que pensa.
- Por que teria eu de querer que todos fossem iguais a mim, quando eu não quero ser como todo mundo?"

Veronika decide morrer

Um poderoso feiticeiro, querendo destruir um reino, colocou uma poção mágica no poço onde todos os seus habitantes bebiam. Quem bebesse aquela água ficaria louco. Na manhã seguinte, a população inteira bebeu, e todos enlouqueceram, menos o rei - que tinha um poço só para si e para a sua família, onde o feiticeiro não conseguiu entrar. - Preocupado, ele tentou controlar a população com uma série de medidas de segurança e saúde pública: mas os polícias e os inspectores tinham bebido a água envenenada, e acharam um absurdo as decisões do rei, resolvendo não as respeitar de modo nenhum. Quando os habitantes daquele reino tiveram conhecimento dos decretos, ficaram convencidos que o soberano enlouquecera, e agora escrevia coisas sem sentido. Aos gritos, foram até ao castelo e exigiram que renunciasse. Desesperado, o rei prontificou-se a deixar o trono, mas a rainha impediu-o, dizendo:
-Vamos agora até à fonte e beberemos também. Assim, ficaremos iguais a eles.
E assim foi feito: o rei e a rainha beberam a água da loucura, e começaram imediatamente a dizer coisas sem sentido. Na mesma hora, os seus súditos arrependeram-se:
-Agora que o rei mostrava tanta sabedoria, porque não deixá-lo a governar o país?
O reino continuou em paz, embora os seus habitantes se comportassem de maneira muito diferente da dos seus vizinhos. E o rei, pôde governar até ao final dos seus dias.

Trecho do livro "Veronica decide morrer" de Paulo Coelho